CRISTINA MARIGO: O JARDIM DE MINHA MÃE


Água, da série O Jardim de Minha Mãe (2018-2019), Cristina Marigo. Acrílica sobre tela. 140x130cm. ED 1/1

 

 EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL 

20 de Agosto a 8 de Setembro 2019

CENTRO CULTURAL SESIMINAS

R. Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia

Belo Horizonte, MG, Brasil

GAL, em parceria com o Ateliê ESPAI e o Centro Cultural Sesiminas, apresenta O Jardim de Minha Mãe, exposição individual da artista mineira Cristina Marigo. O Jardim de Minha Mãe (2018/2019) parte de dois grandes motivos: o jardim, tema de imensa recorrência nas artes; além da figura materna, a quem pertenceria o jardim-modelo das  telas e desenhos presentes nesta mostra. No entanto, ao invés de meros retratos, o que temos são corpos vegetais matizados de modo a quase se dissolverem nas pinceladas grossas e densas, o que faz com que a forma, em cada uma das obras, se torne tão importante quanto o conteúdo. Daí advém um forte caráter autoral da série, e a filiação à tradição ou à figura materna, que, aliás, se condensam na figura do jardim, é  tornada bastante complexa, num jogo de continuidade, ruptura e reinvenção.
Para Cristina, “o jardim rememorado traz a consciência da perda do Paraíso e clama pelo retorno ao centro, mesmo quando nos parece impossível a travessia das múltiplas camadas que o cercam; muros que foram erguidos em busca de proteção.” Esta complexidade se adensa numa marca deste trabalho, a melancolia. Ela ganha corpo pelo protagonismo dos tons amenos e turvos de verde e azul em detrimento de cores mais quentes e, sobretudo, nítidas, como o vermelho e o alaranjado. É menos frequente, também, um fundo branco para dar maior nitidez ou contorno às figuras; ao contrário, quase sempre temos pinceladas espessas e irregulares tornando porosas as fronteiras que separam as plantas, lagos e troncos uns dos outros. E a identidade das formas vegetais fica submetida a uma lógica das intensidades e nuances. Logo, portanto, a visão deste jardim se torna turva: ele, delicadamente, se perde para seu observador devido ao modo como é representado. 
Lembramos, também, que o jardim é a natureza organizada pelo trabalho da mãe, fazendo com que nele se inscreva duas origens: da pintora (mãe) e da pintura (modelo), da cria e da criatura. Uma origem da qual as pinceladas, paradoxalmente, nos fazem afastar, pela pouca figuratividade que possuem, e da qual nos aproxima, pela explícita remissão. “Tempo e lugar da memória da infância no pequeno jardim materno, coberto pelos corpos vegetais, vasos, frescores, cadeiras de varanda e cuidados diários. Tempo de Paraísos e Abundâncias: a vida preenchia todos os nossos espaços internos e os vazios futuros” lembra Cristina. Logo, temos um jardim-uterino perdido ao qual nunca se volta, mas do qual, por outro lado, nunca se afasta completamente.
Da biografia e tradição às pinceladas, finalmente, O Jardim de Minha Mãe elabora uma fina camada de nuances, consciente que é da impossibilidade de uma recuperação total do jardim-uterino. Livre da tarefa documental, sua pintura inverte, por outro lado, o sinal da melancolia: pois a perda se torna, aqui, elemento criativo, e a insubmissão à retratação se converte na invenção de novos objetos. Assim, os fortes tons rosados que irrompem em meio ao verde e que poderiam ser lidos como as flores emergindo das plantas, também sinalizariam a uma certa alegria em meio à melancolia. Algo vivo e carnal brotando em meio à nebulosidade e turbidez do azul esverdeado.
Entre o passado e a face oculta deste, ao mesmo tempo, estranho e familiar jardim-uterino, nascem plantas-borrões, caules-pinceladas, lagos-flores brutos e indomesticados, oriundos da mão de um jardineiro não adâmico que, num corpo a corpo com sua matéria bruta, interfere e se deixa atravessar por ela, estando ambos em mútua reinvenção. No eterno e recíproco cultivo que não visa angariar formas acabadas e definitivas, mas matizar, entre memória e invenção, intensidades e nuances. 
Texto crítico: Marina Câmara e João Guilherme Dayrell.
Curadoria: Laura Barbi (GAL) e Nydia Negromonte (ESPAI)